quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Uma Selva Religiosa
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Srila Bhakti Raksak Sridhar
Dev-Goswami Maharaj

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Discípulo: Por que há tantas religiões diferentes no mundo?
Srila Sridhar Maharaj: No Srimad-Bhagavatam, Uddhava formulou a mesma pergunta: "Por que existem no mundo tantos ‘ismos’ em nome de religião. Será que todos esses 'ismos' que encontramos aqui me levarão à meta, independentemente? Ou existe alguma gradação?"

Krishna respondeu: "Quando começou a Criação, transmiti as verdades da religião ao coração de Brahma, o criador, e, de Brahma, estas passaram a seus discípulos. Entretanto, de acordo com as diferentes capacidades desses discípulos, o que receberam foi levemente modificado ao ser transmitido aos outros. Quando o transmiti a Brahma, esse conhecimento era um. Logo Brahma o legou a seus discípulos, e, quando eles o receberam, o conhecimento penetrou no terreno de seu coração porém com algumas modificações. Quando por sua vez eles o transmitiram a seus discípulos, houve mais modificações." O conhecimento se perdeu devido à natureza viciosa do plano mundano. Existe uma diferença entre aquele que o recebe originalmente e aqueles que o recebem em sucessão.
Desta maneira, a verdade foi gradualmente modificada e agora vemos que o mundo religioso é uma selva. Alguns dão ênfase à penitência, outros à caridade, a isto ou aquilo. Por conseguinte, surgiram numerosas ramificações religiosas. E, para contradizer essas opiniões descendentes adulteradas, surgiram na mente humana opiniões ascendentes antagônicas, como o ateísmo. Em decorrência, vemos agora que há uma selva.
Krishna aparece de vez em quando para restabelecer os princípios da religião (yada yada hi dharmasya glanir bhavati). Quando a religião se degrada ao extremo, Krishna vem novamente ou manda Seu representante, dizendo-lhe: "Observa e retifica".
Tem de haver diferenças religiosas, porém aquele que puder captar o significado interno e real da verdade estará a salvo. Outros serão enganados e passará muito tempo até que sejam liberados. Uma vez que obtenha uma conexão verdadeira com o Guru genuíno, a pessoa não se perderá. Krishna respondeu desse modo, no décimo-primeiro Canto do Srimad-Bhagavatam, à pergunta de Uddhava, e é muito fácil compreender. Não é absurdo nem dogmático. Se formos sinceros, não nos perderemos.

segunda-feira, 27 de março de 2017



                     INVEJA E OFENSA: IMPEDIMENTOS QUE FECHAM A CAMINHADA 
 
Dui jane prabhura krpa dekhi ‘bhakta-gane
Hari hari bale sabe nadita-mane

Ao verem a misericórdia do Senhor para com os dois irmãos, todos os devotos ficaram muito contentes e puseram-se a cantar o santo nome do Senhor: “Hari! Hari!”

No significado deste sloka do Sri Chaitanya Caritamitra (C.c. Madhya-lila 1.218), Srila Swami Maharaj Prabhupada ensina o seguinte:

“Srila Narottama Dasa Thakura diz que chadiya vaishnava seva nistara oeche keba: a menos que alguém sirva um vaishnava, não poderá liberar-se. O mestre espiritual inicia o discípulo para libera-lo.  Se o discípulo cumpre a ordem do mestre espiritual e não ofende outros vaishnavas, seu caminho está aberto.  Consequentemente, Sri Chaitanya Mahaprabhu pediu a todos os vaishnavas presentes que mostrassem misericórdia aos irmãos Rupa e Sanatana, por Ele recém iniciados.  Ao ver que outro vaishnava está recebendo a misericórdia do Senhor, o vaishnava fica muito feliz. 
Os vaishnavas não são invejosos.  Se, por sua misericórdia, o Senhor dota um vaishnava de poder para distribuir o santo nome d’Ele em todo o mundo, os outros vaishnavas ficam muito jubilosos — isto é, caso sejam vaishnavas de verdade.

Aquele que tem inveja do sucesso de um vaishnava com certeza não é um vaishnava, mas sim um homem comum e mundano.  Pessoas mundanas manifestam inveja e ciúmes, e não os vaishnavas. Por que deveria um vaishnava invejar outro vaishnava que é exitoso em propagar o santo nome do Senhor? O verdadeiro vaishnava fica muito satisfeito em aceitar outro vaishnava que esteja outorgando a misericórdia do Senhor.  Não se deve respeitar, mas sim rejeitar, uma pessoa mundana disfarçada de vaishnava.  Isto é prescrito nos shastras (upeksa).  A palavra upeksa significa menosprezo.  Deve-se rejeitar uma pessoa invejosa.  O dever do pregador é amar a Suprema Personalidade de Deus, fazer amizade com os vaishnavas, mostrar misericórdia para com os inocentes e rejeitar ou menosprezar aqueles que são invejosos ou ciumentos.
Existem muitas pessoas invejosas disfarçadas de vaishnavas no movimento para a consciência de Krishna, e deve-se rejeita-las completamente.  Não há necessidade de servir a uma pessoa invejosa disfarçada de vaishnava.  Ao dizer chadiya vaishnava seva nistara oeche keba, Narottama Dasa Thakura está indicando um vaishnava de verdade, e não uma pessoa invejosa ou ciumenta vestida de vaishnava.”

Radhe Radhe!

domingo, 19 de fevereiro de 2017


                           A Eficácia da Urdhvapundra.
(Tilaka)
Este diálogo é travado entre o Senhor Shiva e Parvati, no Padma Purana   (UK. 225. 1-59).

Shankara disse:
- Ó senhora de aparência auspiciosa, vou lhe contar sobre a grandeza da urdhavapundra, a marca vertical que os vaisnavas usam na testa. O brâmane que a usar se libera das amarras da existência mundana só por este motivo. No espaço encantador que existe entre as duas linhas da marca, Vishnu está sentado com Lakshmi. Portanto, o corpo de quem usa esta marca é um templo do Senhor, limpo e auspicioso. O devoto de Vishnu que faz esta marca com argila, se banhou em todos os locais sagrados e está preparado para todos os sacrifícios.
O brâmane que tem esta marca é honrado por todas as pessoas e quando deixa o corpo vai para a morada de Vishnu num aeroplano excelente. O brâmane deve colocar esta marca três vezes ao dia, para a purificação de todos os pecados, para obter o fruto dos sacrifícios que realizar e das atividades piedosas como abrir poços, dar presentes, etc. Só por avistar alguém usando esta marca as pessoas se livram de todos os pecados. Por
saudar devotadamente a quem usa a marca obtêm-se o fruto de todos os tipos de caridade. Os ancestrais de quem alimenta um brâmane que use a marca, indubitavelmente ficam satisfeitos por bilhões de kalpas.
Minha querida Parvati, quem fizer uma cerimônia de shraddha com esta marca obtêm o fruto de fazer Shraddha em Gaya por bilhões de kalpas. O mérito religioso dos sacrifícios, caridade, penitências, recitação de hinos védicos, rituais védicos e austeridades realizados por quem usa esta marca é infinito. Todos os sacrifícios e atos caridosos como escavar poços, realizados por aqueles que não usam esta marca, são inúteis. O seres humanos que não usam esta marca não são vistos; sem esta marca um corpo humano é como um campo crematório. Todos os rituais e atividades meritórias realizados por aqueles que não usam esta marca são consignados aos demônios, e quem os realiza acaba indo para o inferno. O brâmane que seja versado nos Vedas deve usar esta marca feita com argila bem clara. A pessoa sábia nunca deve usar esta marca de uma maneira oblíqua, mesmo que esteja num estado miserável.
Os brâmanes devem ter esta marca na vertical. A marca dos kshatriyas deve ser redonda; a dos vaishyas deve ser como uma listra e os shudras devem usar três linhas paralelas. A marca dos brâmanes deve ser feita com argila; a redonda deve ser feita com almíscar; a de listra deve ser feita com sândalo e a de três linhas deve ser feita com cinzas. A marca vertical é recomendada para todos. Ela não é proibida para ninguém.  
Todas as pessoas, de todas as castas, que forem devotas de Vishnu devem usá-la. Os brâmanes não devem usar marcas oblíquas ou em forma de listras, assim como eles não devem adorar nenhuma outra Deidade além de Vishnu. Um brâmane nunca deve usar uma marca de três linhas na testa e nem uma marca feita com cinzas. Isto é exclusividade dos shudras.
A pessoa nobre, que está interessada no bem estar de todas as entidades vivas deve fazer uma marca sob a urdhavapundra na forma dos pés de lótus de Vishnu. A marca deve sempre ter um hiato no dentro, este é o templo de Vishnu. A marca deve ser bela, aprazível, com ambos os lados bem feitos, na forma de um bastão e com um hiato no centro.  No centro desta marca vertical Vishnu está sentado com Lakshmi. Quem faz a marca vertical sem o hiato, expulsa Vishnu e Lakshmi do Seu assento. Os brâmanes desleixados que usam a marca sem hiato na verdade têm uma marca de um pé de cão na testa. Portanto, para atingir o mundo de Vishnu, os brâmanes devem fazer sempre a marca vertical com um hiato no centro. Para assegurar a liberação, o devoto deve trazer argila de um reservatório nas montanhas Venkata e fazer a marca com esta argila. O devoto também pode usar a argila da raiz de tulasi e fazer a marca com ela. Shri Krishna fica muito satisfeito com isso. A marca feita com a argila do reservatório de Dvaravati, que é muito querido por Vishnu, assegura todos os objetos desejados. E quem trouxer com grande devoção a argila das margens do Ganges, e fizer a marca com ela, obtêm o fruto de todos os sacrifícios. Quem faz esta marca com sândalo, curcuma e também com cinzas do fogo sagrado obtêm o controle de tudo. A argila deve ser de um local consagrado a Vishnu. Ela pode ser obtida do alto de uma montanha, das margens de um rio, da raiz de árvore bilva, de um reservatório de água, da areia da praia, da argila de um formigueiro dos locais consagrados a Vishnu e de onde sempre flua a água usada para os banhos de Vishnu. Quem usar a argila com a água que flui dos pés de lótus de Vishnu e com ela marcar os seu corpo em Shri Rangam, Venkatagiri, Shri Kurma, na auspiciosa Dvaraka, Prayaga, na montanha Narasimha ou do bosque de tulasi (Vrindavana) obtêm a liberação. A marca deve ser feita com a argila de um local onde os devotos de Vishnu a utilizem. Dizem que uma marca escura provoca a paz. E que a vermelha causa o auto-controle. Dizem que a amarela trás riquezas. E que a branca conduz à salvação e é auspiciosa.
Uma marca distorcida, oblíqua, sem o hiato, pequena, longa demais, muito fina, com os bordos irregulares, faltando uma linha, com o topo fechado ou com a base cortada, feia, trás infortúnio. E também a marca que não é feita com o dedo, com argila sem aroma ou inadequada. A marca deve começar a ser feita na base do nariz, no meio das sobrancelhas e deve ter um hiato no meio, com a largura do dedo. A argila branca desenha a marca melhor e mais auspiciosa. Ao marcar a testa o devoto deve meditar em Keshava. Ao marcar a barriga ele deve meditar em Narayana, em Madhava como estando no peito e em Govinda na garganta. Ele deve meditar em Vishnu como localizado no lado direito da barriga e em Madhusudhana como estando no braço direito. Ele deve meditar em Trivikrama como situado do lado direito do pescoço e em Vamana na parte esquerda da barriga. Ele deve meditar em Shridhara como estando no seu braço esquerdo e em Hishikesha no lado esquerdo do pescoço. Ele deve meditar em Padmansbha como estando em suas costas e o lugar de Damodara é o final da espinha.
Ele deve meditar em Vasudeva como estando presente sobre a sua cabeça. Na testa, nos braços, no dorso e nos lados do pescoço as marcas devem ter o comprimento de quatro dedos. Na barriga se recomenda uma marca maior, com dez dedos. No peito e nos braços a marca deve ter oito dedos de comprimento. Desta maneira, o brâmane deve sempre ter doze marcas.
Meditando nas Deidades com os seus respectivos mantras, ele deve marcar as partes do corpo. No hiato da marca pode haver o auspicioso pó de curcuma. Dizem que os kshatriyas devem fazer quatro marcas (na testa, no peito e nos braços) e os vaishyas duas marcas (na testa e na testa). As mulheres e os shudras devem usar uma marca na testa. A principal marca é a da testa e deve ser feita primeiro.
E assim Girija (Parvati), eu lhe expliquei a maneira de usar a pundra (marca). Podem-se usar outras marcas como a da folha de lótus, de figueira-de-bengala e de folha de junco, este trio se chama "Mohana".
Pode haver outras marcas como a do disco, maça e outras marcas verticais pelo corpo. Mas em caso de controvérsia, um devoto puro de Vishnu deve sempre usar a marca vertical na forma de um bastão.
Segundo nossos acaryas é de suma importâcia usar a marca na hora de cantar o gayatri, de fazer adoração à Deidade, de cantar a japa e ao fazermos quaisquer outras atividades devocionais. Em suma, deve-se usar essa marca o dia todo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

QUEM PODE SER CHAMADO DE DEVOTO?

Primeiramente aqueles que têm devoção em Deus, Bhagavan,  são chamados de Bhaktas ou devotos em portugês. Srila Rupa Goswami escreveu — tad bhava bhavita svantah krsna-bhaktaitiritah (BRS 2.1.273)  “Aqueles cujos corações estão repletos de sentimentos por Krishna são chamados de Krishna-bhaktas ou devotos de Krishna”
  
 Utpanna ratayah samyak nairvighnyam anupahatah
Kkrsna saksat krtau yogyah sadhakah parikirtitah
(BRS 2.1.276)
   
 “Aqueles cuja  Rati (atração, apego) direcionada para Krishna está desperta, mas que ainda não se livraram dos obstáculos, e aqueles que estão qualificados para encontrar Krishna face-a- face são chamados de “sadhakas”
   
 Avijnatakhila kleshah Sada krsnashrita kriyah
Siddhah syuh santata prema Saukhyasvada parayanah
(BRS 2.1.280)
   
“Aqueles que estão livres de toda a miséria, tal como ignorância e consciência corpórea, que estão eternamente engajados em serviço a Krishna, e que estão sempre dedicados em saborear o  êxtase de amor por Krishna, são chamados de “siddhas” "

No Décimo-primeiro Canto do Srimad Bhagavatam o devoto mais elevado é descrito como segue:

sarva-bhutesu yah pasyed bhagavad-bhavam atmanah
bhutani bhagavaty atmany esa bhagavatottamah
(SB 11.2.45)
                    
 “Aquele que vê o Senhor Supremo em tudo e tudo vê no Supremo e que relaciona todas as coisas conscientes e inconscientes com o Supremo é o mais elevado de todos os devotos.